Sobre Jung de Marcia Zoé

“não espere que o rigor do teu caminho, que obstinadamente se bifurca em outro, tenha fim.” (BORGES)

Excessos e faltas estão presentes nos lugares de partida e de chegada.
Jung é um artista que iniciou sua experiência pictórica em grupo, ao ar livre, nas ruas. Essa experimentação proporciona a ele uma convivência com o universo da arte para além das paredes da galeria do tio colecionador e comerciante de arte, uma presença marcante em sua vida. Curvas serpentinadas, enrugadas, confusas, confundidas, enroladas, quebradas, dobradas, espelhadas, acumuladas, ornamentadas, antitéticas, opostas, contrapostas, labirínticas, deformadas, alegóricas, claro escuras, herméticas, obrigam-nos a mudar constantemente de ponto de vista para entender aquilo que vem inscrito em sua obra, propondo o deslocamento do observador – exigindo dele e nele a assimilação dos contrários. Esse fazer coletivo possibilitou a incorporação da essência barroca desde o início em sua produção artística e até mesmo a teatralidade das procissões, a grande apoteose religiosa barroca ele pintou no começo do seu ofício. Eram pinturas coletivas com interferências do grupo de artistas que percorriam as ruas do Rio antigo em busca do melhor tema, luz, ângulo. O diálogo, a tensão, o desencontro, os excessos, as faltas e as representações que se entrelaçavam por este caminho, foram incorporadas em sua obra. A rua foi definidora e definitiva.

Apesar de ter iniciado tardiamente sua experiência pictórica, [suas primeiras obras datam de 2000] quando resolve frequentar aulas de pintura com o Mestre Bandeira de Melo, Jung leva consigo essa rica vivência e vai em busca da técnica, uma forma de dar aos “caos”, uma direção. Ele buscou e permanece buscando caminhos para propiciar e aprofundar o contato com seu fazer artístico. Aluno do EAV, atualmente frequenta os cursos de teoria ministrados nesta instituição por grandes nomes do cenário artístico nacional.

Ardente fruidor das artes, admirador explícito da poética expressionista, seu trabalho possui afinidades com a linguagem artística oriunda do pós-guerra e dos nomes que surgiram a partir desse período dentro do movimento, com ênfase nos abstratos. Ele tem claro que o expressionismo foi um movimento definidor em todos os aspectos, e mais que uma forma de expressão, foi um movimento construído em função de valores humanos.
Nas pinturas expressionistas tudo é essência, ou seja, interiorizado, singular, irracional, povoado de impulsos e paixões individuais. A natureza, o espírito, a arqueologia dos corpos e dos objetos, os vestígios, as texturas fazem parte do repertório expressionista e a obra de Jung começa a se definir nessa perspectiva.
Pesquisar processos tornou-se algo obrigatório em sua trajetória e descobriu que não só a informalidade sustenta a arte abstrata. Se no início arrebatar-se era suficiente , com o passar do tempo outros questionamentos surgiram. Jung trabalhava visando a obra em si, mas foi evoluindo no sentido de projetá-la para além do contemplativo e assim, suas referências foram se ampliando com Polke, Penk, Resnick, Bazelitz, Richter, Kiefer, Iberê, Bracher, Bogart, Vergara.

Deleuze define arte como a linguagem das sensações, capaz de penetrar nas palavras, nas cores, nos sons e nas pedras. A arte é feita para quem está fora da sua esfera. Uma de suas funções é fazer da experiência da arte a experiência do outro. Exprimir, narrar, fazer pensar e não somente provocar sensações é o que faz de uma obra, arte. Nesse sentido, as estruturas criadas por Jung possibilitam múltiplas interpretações. A complexidade presente em suas abstrações carrega uma intricada estrutura sígnica, intensa, densa por vezes (sua série denominada “Regular” possui essa densidade). E o que nos põe a pensar quando nos deparamos com uma obra assim? O signo. Para Deleuze, o signo é objeto de um encontro; mas é precisamente a contingência do encontro que garante a necessidade daquilo que ele faz pensar. O ato de pensar não decorre de uma simples possibilidade natural; ele é, ao contrário, a única criação verdadeira.

O registro pictórico de Jung é uma ação da linguagem e é uma forma de expressão articulada, mas sua pintura só se completa numa cadeia de eventos e a primeira grande série de Jung denominada “Regular” alimenta todas as outras cadeias produtivas que surgiram a partir daí. Merleau-Ponty escreveu que “a visão do pintor é um nascimento continuado”, assim, enquanto dá corpo à série abstrata intensa, viva, com excessos nas massas de cores e nas infinitas dobras criando um diálogo tenso, porém arrebatador, belo como a nos dizer que são dobras da matéria e da alma; labiríntica, infinita, ele também nos propõe uma viagem denominada “Irregular”, sua segunda série, agora monocromática, desordenando e recriando outros signos. Ele liberta-se e transmuta-se. Sentidos e sentimentos são reconstruídos a partir de vestígios, fragmentos, aparas, escorridos, restos, sobras, faltas. Jung, incansável, insaciável, propõe um embate de múltiplas associações fluídicas. Nas palavras de Sonia Garcez, “a fragmentação é uma abstração do sujeito e Jung percorre novas travessias em sua capacidade criadora e inquietações, legitimadas em suas obras. São constelações de elementos que promovem múltiplos sentidos num movimento constituído de espaços semióticos tais como a irregularidade, colocando sua obra no âmago do discurso contemporâneo”.

No momento em que uma grande diversidade de elementos se incorpora ao fazer artístico, concedendo liberdade para que outros campos sejam explorados numa interatividade frenética entre espaço e sujeito, Jung passa a reler sua própria obra como um arqueólogo que busca vestígios de uma civilização passada em fragmentos e detalhes que ele próprio foi imprimindo ao longo do caminho. Corpos orgânicos deslocam-se das obras tornando-se um quase objeto sem forma definida, mas que ao mesmo tempo dá pistas de que algo existiu ali. Morte e renascimento. Algumas pinturas são registros chamados de “quadros sem tinta” e neles, sinais são mais nítidos, sombras escondem marcas, ali a pintura nega a si própria e remete ao “parecer ser”, uma ausência e presença na mesma obra. Numa série de aguadas chamadas de “Enigmas”, são mapeadas novas descobertas e agora as faltas são impressas, sombras anímicas. Ausência e presença ocupando o mesmo espaço. Nas “Monotipias”, outra série, as marcas são profundamente inquietantes, pesadelo e sonho se entrelaçam e surge o novo, a nova dobra da matéria, a nova dobra da alma, fluídica, dissolvida, viva. Os detalhes das obras chamadas “Regulares” e “Irregulares” passam a ser investigados através da fotografia e ampliados na busca de mais pistas que possam revelar a alma das coisas. Jung já não vive no passado, o passado vive nele. Ele só tem o presente e o expressa diária e obstinadamente em suas obras porque este é o seu ato de viver, sua apoteose cotidiana.

Estas novas escolhas de Jung são abertas às interpretações do tempo num expressivo jogo orgânico interior e exterior, transbordante. Jung entrelaça outros mundos e relê a si próprio. Se reconstrói a partir de seus próprios vestígios, do que sejam excessos e/ou faltas no seu mundo que é o mundo de todos, entrelaçado, mutante, diverso. Eis a obra de Jung, lugar de partida e de chegada. Para Borges, caminhos como esse, que se bifurcam em contínuo, estabelecem uma elipse no infinito.

Marcia Zóé Ramos 03/2013 (artista plástica, arte educadora, produtora e gestora de projetos de arte e cultura).

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